ALPINISTA
Embora não satisfaça por inteiro, de fantasia também se vive. O ser humano é, por vezes, imprevisível, negando a realidade por não traduzir suas necessidades, ou mesmo quando isso acontece, por virar rotina.
Desidério, assim ele se chamava, percorria o palco das fantasias eróticas de maneira progressiva e altamente gratificante. Dotado de uma argumentação convincente, envolvia as namoradas e nelas inoculava o bacilo de posturas esdrúxulas com resultantes inusitadas. Essa arte chegou ao perfeccionismo quando conheceu Dulcinéia em uma gafieira do centro da cidade.
Quando ele a enlaçou pela cintura e executou os primeiros passos na pista de dança, pareciam antigos parceiros, tão bem ajustados, deslizando ao som de um saxofone que rasgava a noite. A dança tem poderes mágicos: atrai, acaricia, promete, tenta, elabora, enfim, inebria. Os bons dançarinos introjetam as melodias, brincam com as notas musicais, saem do chão, atingem órbitas celestiais, sempre dentro da cadência, comandam o ritmo, galopam em jardins do paraíso, provam o néctar dos deuses, incendeiam, contagiam.
Em alguns minutos, ele começou a falar ao pé do ouvido da jovem e sentiu, com seu infalível faro, que ela já estava no papo. Poucos dias após, ele a recebeu em seu quarto de pensão, em plena Lapa. O porteiro era de confiança e fazia vista grossa quando chegavam os contrabandos, pois Desidério o gratificava, regularmente.
Tão logo a jovem chegou, ele desceu a biblioteca, exibindo larga experiência, abraços lânguidos, beijos de tirar o fôlego, carícias sardanapálicas, promessas senegalescas; conduziu_a para Ara, altar de sacrifícios e executou diversas posições, tão bem expressas no velho Kama Sutra. Dulcinéia ficou eletrizada, magnetizada, entregue, cativa. No momento que antecedeu ao clímax, ele soltou um grito de Tarzan, tão bem emitido que faria inveja a Johnny Weissmüller, e deu seqüência, sussurrando_lhe, ao pé do ouvido, palavras de baixíssimo calão. Ela jogou a cabeça para trás e uma baba bovina escorreu de sua comissura labial esquerda.
Cada mulher é sensível a um estímulo determinado; para algumas o grito do coiote ferido; outras vibram com o tigre faminto; outras, ainda, com o leão em angústia.
Desidério conhecia par e passo esses caminhos, pois começou com o gato de botas, atingiu o lobo nas estepes, culminando com a serpente em êxtase.
Cada mulher abriga, em seus recônditos, nuances e mumunhas que percorrem a distância entre o sol e a terra em um átimo de segundo.
Cada mulher traz, dentro de si, a sensibilidade de uma harpa divina a ser vibrada, em cada corda, no momento exato.
Cada mulher, em suma, carrega vulcões adormecidos, desejos hibernados, loucuras ávidas pela ebulição total.
Outros encontros se sucederam com resultados semelhantes, culminando, sempre, com o grito de Tarzan e palavras obscenas em sussurro.
Até chegar o momento em que o encanto foi quebrado. Dulcinéia ficou a ver navios e o brado do homem macaco reverberou pelas paredes sem nada mais acontecer. Mas ela fez o que quase todas as mulheres fazem nos momentos em que nada sentem: gemeu, se contorceu e puxou os cabelos do amante.
A situação deteriorava a olhos vistos, terminando com aquele grito de sempre, já agora, inteiramente sem eco.
Um dia Desidério acordou, não encontrou Dulcinéia, mas, apenas, alguns cipós e um bilhete que dizia assim:
_ Meu bem, não mais te agüento, aproveita os cipós, busca outras florestas, mas sem gritos e sem sussurros...
Conto que me fez dar muitas risadas. Parabéns!
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